27.3.07

Temporada de tigres na Ásia

O grupo separatista Tigres do Tamil realizou, nesta segunda-feira, um ataque aéreo contra uma base aérea próxima ao aeroporto de Colombo, capital do Sri Lanka, tornando ainda mais dramático um fim de semana marcado pelo confronto em Jaffna, que deixou 48 mortos - 44 deles da etnia Tamil. Os caças oficiais, no entanto, não foram avariados. É a primeira vez que os Tigres utilizam aeronaves na sua luta pela independência, que já se estende por mais de vinte anos. O grupo divulgou fotos dos aviões Zlin Z 143, de fabricação checa, utilizados no ataque.

O movimento separatista no Sri Lanka tem suas raízes no fim da colonização britância, em 1948. A etnia Tamil, minoritária mas apoiada pelos ingleses, começou a enfrentar dificuldades com a maioria cingalesa. Embora questões religiosas façam parte do cenário - grande parte dos cingaleses é budista, e entre os Tamil o hinduísmo tem grande penetração - os dois grupos constituem povos diferentes, com idiomas e costumes próprios. Os Tamil, espalhados pelo norte e leste do Sri Lanka e sul da Índia, organizaram seu exército em 1976. Em 1983, no que ficou conhecido como o "Julho Negro", o genocídio e a pilhagem que tiveram curso em Jaffna levaram ao fortalecimento do exército Tamil e marcaram o início da guerra civil no país. De lá para cá, os separatistas assumiram a responsabilidade por centenas de atentados, que incluem o assassinato do primeiro-ministro indiano Rajiv Gandhi em maio de 1991 e de Ranasinghe Premadasa, presidente do Sri Lanka, em 1993. Ao grupo é ainda atribuída a invenção do colete explosivo hoje utilizado por homens-bomba do Hezbollah e do Hamas, e o primeiro ataque terrorista via internet, dirigido às embaixadas de seu país, em 1997.

20.2.07

Mardi Gras

A Rússia se posicionou claramente contra a instalação de um escudo antimíssil na República Checa e na Polônia. Ameaça tornar os escudos alvos de sua artilharia.

Já o Irã - que realizou ontem alguns exercícios militares para lembrar ao Ocidente que possui uma Força Aérea - continua a negar qualquer intenção belicosa em suas pesquisa nucleares. Um porta-voz iraniano disse ontem, no Omã, que o país é contrário à ação militar, ou mesmo a sanções econômicas. Mas que "a qualquer momento em que o Islã for ameaçado, as nobres nações iranianas não hesitarão em defendê-lo de todas as formas".

Enquanto isso, apesar de atrasos no pagamento, a Rússia garante cumprir os compromissos com o Irã em relação à usina nuclear de Bushehr.

O carnaval foi interessante para os saudosistas da Guerra Fria.

12.2.07

Como se forja um conflito

"Não é verdade. E não é justo. O Irã não forneceu aquelas armas. Isso lembra as primeiras declarações dos Estados Unidos contra Saddam Hussein, sobre as armas de destruição em massa".
A declaração, de um diplomata iraniano no Iraque, é mais uma das afirmações sem rosto que proliferam nesse conflito que parece apenas intensificar-se. Também não tem nome os militares de alta patente que entregaram as fotos de munição de suposta origem iraniana à imprensa.

De declaração em declaração, as nuvens vão condensando e escurecendo o céu do Irã. A via diplomática parece um caminho improvável para se evitar um conflito maior no Oriente Médio - um conflito que parece estar sendo forjado há algum tempo, como já defendeu Gorbachev, citado por Nelson Franco Jobim em seu blog, e Seymour Hersh, da CNN, já em 2005. Colin Powell, ex-secretário de Estado dos EUA, admite - em interessante reportagem publicada na Newsweek esta semana - que Bush não tem intenções de lidar com um governo que não reconhece. "Não há como negociar quando você diz à outra parte: 'dê-nos o que uma negociação produziria antes que a negociação comece'."

Por outro lado, é interessante a escolha de Robert Gates para o Departamento de Defesa americano. Gates não se tornou diretor da CIA em 1987, como seria natural, devido ao seu possível envolvimento no caso Irã-Contras. À época, as relações com o Irã deveriam ser melhores - ou pelo menos o tráfico de armas com o país árabe tinha uma boa razão, naqueles tempos da Guerra Fria que ele diz "quase" sentir saudades hoje. As acusações de terrorismo (a CIA estaria usando o Irã para patrocinar um golpe de direita na Nicarágua) ainda são lembradas pelos iranianos. Ainda segundo a Newsweek, um diplomata que esteve envolvido nas últimas negociações entre Irã e Estados Unidos, representando os primeiros, disse querer evitar um "Irãgate 2".

Existe uma verdade sendo fabricada, no momento. Sua ligação com os fatos e os tons que vai adquirir se revelarão com o tempo. Mas é muito possível que estejamos assistindo, já há algum tempo, a um conflito sendo forjado.

5.2.07

O tigre na África

É difícil fugir ao tema do orçamento astronômico de George W. Bush. O total de dinheiro envolvido na guerra no Iraque chegaria a 716 bilhões de dólares, quantia superior ao PIB de qualquer país do Oriente Médio - o Irã, campeão regional, atinge os 610 bilhões. E a insatisfação já começa a tomar corpo dentro das próprias Forças Armadas americanas, com a recusa do primeiro-tenente Ehren Watada em conduzir suas tropas ao Iraque por considerar a guerra ilegal. "Eu lutaria no Afeganistão, mas não no Iraque".

É difícil encontrar outro assunto, mas está longe de ser impossível. E quem chama a atenção agora é um homem de quem provavelmente ouviremos o nome com cada vez mais frequência daqui por diante: Hu Jintao. O presidente da China.

De 30 de janeiro até 3 de fevereiro, Hu Jintao esteve com o xeque Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, vice-presidente e primeiro ministro dos Emirados Árabes Unidos; Paul Byia, presidente de Camarões; Ellen Johnson-Sirleaf, presidente da Libéria; Omar Hassan Ahmed al-Bashir, presidente do Sudão; e Levy Patrick Mwanawasa, presidente da Zâmbia. É a segunda vez que Hu vai à África em um ano.

O extraordinário crescimento da China - propagado pelo Fórum Econômico Mundial e teorizado por Lula ("bom mesmo é na China, onde você manda e todo mundo obedece. Aqui, nem o PT me obedece mais") - e suas anunciadas reservas têm permitido ao país alguns luxos. Negociar petróleo com o Sudão, mandar trabalhadores para a África e oferecer empréstimos sem juros, por exemplo. São coisas que têm deixado boa parte do mundo ocidental de cabelo em pé, levando a declarações e condenações sobre a (falta de) preocupação por parte dos chineses com assuntos de primeira linha como meio ambiente e o mercado de trabalho no continente africano. O curioso é que o país que mais polui hoje não é a China, e se recusa a aceitar programas de redução de emissão de poluentes. Mas tem forte ascendência sobre o Banco Mundial, que surge como o prejudicado da história. Como não pode competir com a oferta chinesa, suas exigências socioecológicas não podem ser negociadas. Hu Jintao está inventando um capitalismo à chinesa, explorando a fraqueza primordial do sistema e sua própria justificativa: o fato de basear-se no capital. Com a maior população do mundo sendo mantida no cabresto, a produção desenfreada e a balança comercial que tem - só exporta - a China tornou-se um país rico o suficiente para jogar o mesmo jogo que o resto do mundo.

Só que agora com cartas altas.

29.1.07

O grande laboratório humano

A mudança generalizada de regimes na África - como a queda de Siad Barre, na Somália, a ascensão de Nelson Mandela na África do Sul e a transição dramática em Ruanda - propiciou ondas de violência que varreram o continente durante a década de 90. Apesar da história africana estar povoada de episódios de violência intertribal, principalmente depois da criação arbitrária de seus países, os últimos vinte anos mostram um recrudescimento destes conflitos. Talvez o fim da Guerra Fria tenha uma parcela considerável de envolvimento com isso, por ter estimulado lutas em um campo neutro - para as nações envolvidas, evidentemente. O apoio soviético ou americano armou e destruiu regiões inteiras, e sua supressão sem planejamento em nada contribuiu para uma reorganização política saudável. Algo como o que os EUA alegam pretender fazer com o Iraque, por exemplo.

Se por um lado a falta de apoio das auto-intituladas "nações desenvolvidas" - e não cito aqui apenas os EUA, mas Inglaterra, Alemanha e particularmente a França - não contribuiu como poderia para a reconstrução do continente, por outro levou os países africanos a criar suas próprias soluções para os problemas enfrentados. A ajuda da ONU foi cosmética em alguns casos, atrapalhada em outros, e quase sempre levada à pouca eficácia pela dificuldade em compreender diferenças sociais e culturais e pela imobilidade gerada nas políticas dos países que a compõem; as alternativas formuladas, muitas vezes, deveriam servir de lição para o Ocidente maravilha.

Na Somália, o governo de transição encontra-se hoje mais ou menos no mesmo ponto em que se encontrava antes da invasão da capital pelo exército etíope. Depois de várias mortes e incontáveis violações dos direitos humanos, o governo somali (eleito no Quênia) continua sem apoio popular. Não foi capaz de criar uma base sólida junto a uma população já acostumada à divisão - a Somalilândia, por exemplo, achou por bem reforçar a insubmissão ao governo apoiado pela Etiópia e pediu hoje à União Africana o reconhecimento de sua independência.

Uma possível solução para a Somália parece vir de um vizinho de passado trágico: Ruanda. O país que viveu um dos episódios mais traumáticos da história recente - um genocídio organizado promovido por forças de dentro do próprio governo, em 1994 - propõe-se hoje a treinar o exército somali. É uma tentativa de fazer com que o próprio país cure suas feridas, uma ação no sentido inverso à que vem sendo praticada . Ruanda encontrou relativa estabilidade sob o governo de Paul Kagame, atual presidente e ex-comandante das tropas que retomaram o país e forçaram a saída dos génocidaires em 1994. Eles sabem, por experiência própria, que enquanto o país não for capaz de cuidar de si os conflitos continuarão a ser fomentados, enquanto a ajuda humanitária mantém nossas consciências apaziguadas. Que a ajuda vá além do treinamento de tropas e envolva o sentimento de reconstrução, é isso que esperamos.

Sobre o apoio de Ruanda à Somália: As we go to Somalia..., de Thomas Kagera (The New Times/Ruanda)